“A dança foi meu refúgio a vida inteira, e não foi diferente quando perdi meus pais”, diz bailarina Nanda Zompero.

24/03/2018

Professora e bailarina de danças árabes, Nanda Zompero diz que a volta ao trabalho foi uma espécie de salvação e a dança foi o que a ajudou a “entrar nos eixos”, sempre foi sua aliada, desde o 7 anos, quando iníciou suas crises de Síndrome do Pânico.

Confira a emocionante entrevista com Nanda Zompero, que perdeu em menos de um ano a sua mãe e seu pai, para o temido Câncer. A bailarina, que também é proprietária de um estúdio de danças em São Bernardo do Campo na região Metropolitana de São Paulo , conta que pensou em desistir e largar tudo, já que sua mãe era a sua maior incentivadora, mas mudou de ideia quando percebeu que por eles deveria continuar.

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Nanda Zompero – Foto: Jay Andreotti

Muitas alunas fazem dança do Ventre para se distraírem ou buscam momentos únicos de libertação com seu próprio corpo, momentos alegres e bem-estar pessoal. Como foi entrar na sala de aula depois do luto e ainda manter o sorriso no rosto? Já que a sua profissão requer este comportamento.

Logo que eu perdi a minha mãe jurava que ia parar com tudo, a minha mãe sempre foi a minha maior incentivadora e amava a dança tanto quanto eu, então era como se nada mais fizesse sentido sem ela. Porém quando a minha mãe faleceu eu já estava com um pacote e viagem fechada para o Baladi Congresses que acontecem anualmente em Salvador (Bahia), e incentivada pelo meu pai que ainda estava vivo e pelo meu marido eu fiz a viagem. Sinceramente foi a melhor coisa que eu fiz, lá eu recebi muito carinho, o povo baiano é fora do comum, e pude me lembrar do porque eu dançava, do porque a dança era tão importante na minha vida. A dança sempre funcionou como um resgate pra mim, sempre me acolheu e salvou nos piores momentos, e assim foi e continua sendo. Do ano passado para agora foram 4 perdas familiares, dificílimas e de pessoas muito próximas, mas após o choque com a minha mãe eu aprendi 2 coisas: a primeira, que eu deveria continuar por cada um deles, que eu tenho certeza que iriam querer me ver bem, e segundo,  pelo amor que eu sinto pelo que eu faço e por saber que eu posso e tenho como ajudar outras pessoas através das minhas experiências pessoais.

Em que momentos a dança foi o seu refúgio?  E como te ajudou?

A dança foi o meu refúgio a vida inteira, eu sofro de síndrome do pânico desde os meus 7 anos de idade e tenho fortes crise de ansiedade. A dança foi quem me ajudou a “entrar nos eixos” literalmente, pois tem o poder de controlar a ansiedade que é o grande ocasionador das crises de pânico entre outros problemas psicológicos. Não foi diferente em relação ao luto, o carinho das alunas e dos colegas de trabalho, a dedicação que eu tenho pelo que faço, fazem com que a vida siga mais leve e me desligue de tudo que me entristece. Não quer dizer que eu sinta menos, ou que não esteja passando pelo processo de luto, mas de fato é algo que alivia a minha dor.

Em algum momento pensou em parar para se dedicar mais aos cuidados com a sua família?

Eu não só quis como parei. Meu pai descobriu o câncer em Janeiro de 2017. Naquela época a minha mãe era mais saudável que eu. Aproximadamente 4 meses depois a minha mãe adoeceu ficando muito pior do que o meu pai, nesta época já estava difícil de administrar a minha casa (pois sou casada), o meu estúdio, os eventos, as aulas e os cuidados com os dois. Eu passava o dia inteiro em prol deles e vinha pro meu estúdio somente nos horários de dar aula, mas isso somente no começo. Mais ou menos 1 mês depois que a minha mãe adoeceu começaram as internações, de ambos, cheguei a ficar 20 dias com os dois internados ao mesmo tempo, e depois vieram outras internações intercaladas, nessa época eu acabei deixando o estúdio nas mãos de outras pessoas e as minhas aulas eram dadas pela minha assistente Aline. Quando a minha mãe faleceu eu já estava afastada do estúdio a mais de 1 mês, por mais que eu cuidasse de tudo a distância e deixasse sempre as alunas a par do que estava acontecendo, cheguei a perder mais de metade das minhas alunas, tendo que retomar quase que do zero quando retornei. Não me arrependo, faria tudo de novo e farei se for necessário com as pessoas que eu amo.

Se não fossem os momentos que sua profissão te proporciona, acha que seria pior?

Não sei se seria pior, mas acredito que seria mais difícil, pois quando não estou no meu papel de bailarina e professora, estou no meu lado designer gráfico, quando você trabalha em frente ao computador, que era o que eu fazia antes de viver 100% da dança, é fácil a mente ir longe e você se descompensar, por mais que possa usar as redes sociais e ouvir música. Mas não é a mesma coisa, acredito que eu se eu estivesse trabalhando em agências ou produtoras como antes, devido ao estresse que existe neste ambiente de trabalho juntamente com o luto, eu poderia estar pior.

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Nanda Zompero – Foto: Jay Andreotti
Por: Renata Santana