“Mulheres que tocam”: Nanda Rodrigues se destaca tocando instrumentos de percussão da música árabe e prova que talento independe de sexo.

26/04/18

Nanda Rodrigues é percussionista de estilo árabe e também do estilo brasileiro. Mesmo com rostinho de menina, já possui 18 anos de carreira na música. Além de se dedicar desde criança à música, Nanda é empreendedora, professora e bailarina.

Música é uma palavra de origem grega, que se remete a “a arte das musas” e tem sua essência feminina. Veja que não é apenas pela delicadeza, sonoridade ou emoção, mas desde a origem da palavra. E a musa Nanda se destaca nesse meio por um diferencial: toca instrumentos que muitas vezes são considerados “masculinos”. Ela acredita que a música em sua vida é uma missão e faz antes de mais nada por muito amor. Segunda ela o fato de ser mulher a fez se destacar ainda mais.

A música tem um papel muito importante dentro da dança do ventre, pois é ela que determina os momentos do repertório e toda bailarina precisa conhecer um pouco mais sobre ela. Por isso a procura pelo conhecimento aumenta a cada dia, o que fez com que Nanda se dedicasse a ministrar workshops e aulas regulares, por vários lugares do país. Acompanhe na entrevista a seguir, a trajetória de Nanda Rodrigues e outras curiosidades sobre a profissão da musicista.

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Nanda Rodrigues na sala de aula – Foto: Melissa Souza

 

Quando começou o seu interesse pela música?

Aos 10 anos de idade, meus pais me colocaram na aula de teclado. A partir daí o interesse só aumentou. Passei por diversas fases e projetos. Fui contrabaixista de banda de rock, fui percuterista trabalhando na noite com MPB (Música Popular Brasileira), e só depois me tornei derbakista também.

E o interesse pelos instrumentos da música árabe?

Em 2013, ao ingressar na aula de dança do ventre, o interesse foi automático. A partir da facilidade que eu tinha com instrumentos de percussão, foi fluindo de uma forma muito bacana essa paixão.

Você é professora de derbake, considerado um dos instrumentos principais da música árabe, ministra workshops e aulas regulares. Além disso, você se apresenta em shows com o instrumento com frequência ou sente que este mercado é pouco aberto para mulheres?

Antes de me tornar professora eu já me apresentava com o derbake havia 3 anos. Então inicialmente o mercado foi para apresentações e só depois para aulas, mas o mercado de apresentações é muito menor do que o de aulas, e isso para ambos os sexos.

No meu caso sinceramente, sinto que ser mulher só fez com que eu me destacasse ainda mais, e vejo que existe sim preconceito com a gente, temos que provar por “A+B”, que tocamos o instrumento com vontade, com amor, e que temos resiliência. Mas esse preconceito do mercado eu sinto que existe com todos os novatos. Sendo homens ou mulheres, demoram muito a ter abertura e reconhecimento por parte dos veteranos, que muitas vezes se dão ao trabalho de falar mal dos novatos para prejudicá-los. Triste ilusão, os mais prejudicados são eles mesmos.

De uma forma geral, sinto que cresço à medida em que me esforço, e isso é puro merecimento. Tenho construído um nome, trabalho de formiguinha assim como todo mundo. É muito amor envolvido não?

Você costuma ouvir algo do tipo: “Mas não é que você toca direitinho, né?”, “Não é que você tem mesmo talento”. Enfrenta algum preconceito?

Já ouvi de tudo nessa vida. E não veio só do meio árabe, do meio brasileiro também. Já me acostumei com o fato de que as pessoas inicialmente enxergam só sua carcaça física. Até a pessoa enxergar o que você tem de talento, de personalidade demora muito e às vezes nunca acontece. Então eu simplesmente continuo minha caminhada independente do que escuto, pois sei que na maioria das vezes é só projeção de ego.

Em sua jornada como instrumentista, você encontrou muitas mulheres que abraçaram a mesma profissão?

Não. Ao vivo e a cores? Pouquíssimas. Comecei numa época em que ainda não éramos tão ligados nas redes sociais. Tanto é que existem poucos registros meus tocando desde que comecei. Passei a registrar melhor de 2014, 2015 pra frente, em vídeos e fotos, página, canal, Instagram. Então assim, hoje em dia tenho contato com muitas mulheres percussionistas, e hoje todo mundo se arrisca no derbake. Algumas são profissionais, outras não. Hoje existem várias professoras de derbake, na época de 2013 eram muito raras. Então se destacava no Brasil o nome de Bety Vinil, que é a pioneira, e é fundadora do grupo Derbatuke, do qual hoje em dia faço parte. Depois o meu nome, e hoje em dia temos várias professoras, como Amelie, Flavia Hafisa. Tenho formado pessoas novas, professoras de dança do ventre que querem tocar para suas alunas, e tenho certeza que minhas alunas continuarão essa história de derbake por muito, muito tempo.

Aulas para aprender a tocar o derbake são relativamente novos no Brasil, você vê qualidade em todos eles? Acredita que atualmente mais pessoas procuram aprender mais sobre o instrumento? Nos conte também um pouco  sobre o público que mais procura.

Eu creio sim que a procura aumentou bastante. As pessoas ficam curiosas nele, ele é um instrumento maravilhoso, versátil, que pode ser usado em diversos tipos de música. Olha, eu já dava aulas regulares do instrumento, mas lancei o curso só em 2017 em módulos, organizei o conteúdo básico em horas, mas creio que todos os professores façam mais ou menos isso. Ministram aulas regulares, workshops, e alguns cursos.

O público que mais procura são os maridos de bailarinas e as próprias bailarinas, claro, que buscam melhorar-se como profissionais, e professoras. Fico muito feliz com esse interesse.

Você procura conhecimentos no berço do instrumento?

Eu nunca tive oportunidade de estar no berço do instrumento. Mas sou louca pra dar um pulinho no Egito, Turquia, etc para estar com os grandes mestres fazendo aula. A maneira que temos é esperar quando eles estiverem no Brasil. Faço tudo que posso para aprender sobre a cultura. Não parei de fazer dança do ventre, acho que está intimamente ligada ao meu desempenho como derbakista também, o fato de dançar.

Por que abraçou a profissão e como acha que a música atua nas pessoas?

Encaro a música como minha missão de vida. Porque simplesmente faço por amor. Faço por dinheiro também? Obviamente, porém sabendo do poder transformador da música nas pessoas, eu sinto que o dinheiro se torna secundário, ainda mais no Brasil. Minha missão é alegrar e transformar vidas através da música e da dança. As aulas são ainda mais recompensadoras que os shows. No show você sente a energia proveniente da alegria das pessoas, nas aulas você transforma a vida das pessoas. Abracei a profissão porque é o que faz meu coração vibrar. Temos que ser condizentes com a nossa verdade.

Nanda Rodrigues
Nanda Rodrigues – Foto: Gabriel Rollo

Quer conhecer um pouco mais sobre o trabalho da Nanda? Veja o video abaixo:

Por Renata Santana